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O que seu MBA não te ensina sobre liderança.

Certa vez tive um cliente em que logo nas nossas primeiras interações se mostrara uma grande pessoa. Ele havia montado uma empresa, esta empresa cresceu, ele empregou pessoas e sempre se demonstrou preocupado com o desenvolvimento dos seus empregados.

Ele era sem duvida um empreendedor. Não havia montado muitas empresas, apenas esta, mas a levantou do zero e a tornou referencia no seu setor.

Não era, porém, um bom gerente e para minha surpresa se mostrava um péssimo líder. Sua empresa se tornou vitima do seu próprio sucesso, alcançou o pico do crescimento e entrou em uma fase de declínio.

Somente após um trabalho difícil de autoanálise é que ele colocou a sua empresa novamente na rota do crescimento. Por que ela se mostrava um péssimo líder? Porque apesar das suas ótimas intenções ele não era capaz de fazer com que sua equipe comprasse suas ideias e executasse aquilo que ele desejava.

E sua maior falha qual era? Justamente querer provar que era um bom líder. Ele colocou em segundo plano os objetivos do seu negócio e passou a querer se encaixar em um estereótipo de como acreditamos um líder tem de ser portar. Eu atribuo isso em grande parte a um mal da nossa geração, que é a banalização do líder.

Muito se fala hoje em dia sobre liderança. A liderança virou assunto acadêmico. Estudado e pesquisado nas grandes universidades de todo o mundo. Peter Drucker, Jim Collins, Michael Porter são apenas alguns dos professores/gurus a abordarem o assunto na Universidade de New York, Stanford e Harvard.

Virou alvo de interesse também das grandes empresas. Executivos pagam muito dinheiro para irem a estas e outras universidades e serem treinados no assunto.

Certa vez ouvi um amigo que acabara de terminar seu MBA comentar que nem todo mundo possuía habilidades de liderança nata, mas que estas habilidades poderiam ser ensinadas.

Seria isto verdade? Particularmente eu acredito que técnicas e habilidades de gestão, sim, podem ser ensinadas e desenvolvidas, mas a liderança em si é algo muito pessoal e dificilmente pode ser ensinada.

Além disto, uma bom líder pode florescer em determinado ambiente, mas em outro não. Uma boa liderança depende invariavelmente do contexto em que ela se encaixa.

Ou seja, não podemos definir o que é e o que não é um bom líder sem antes conhecer seu contexto – seus objetivos, seus desafios e a sua equipe.

Entre meu MBA e empresas em que trabalhei, passei muitas vezes pelo exercício de análise do meu estilo de liderança. Este tipo de exercício é interessante e divertido, mas sempre foca no líder, quando o foco deve ser na equipe. Equipes possuem perfis distintos e deve ser lideradas de uma ou outra forma dependendo do seu perfil, ambiente e objetivo a ser alcançado.

A história nos diz quem são os grandes líderes. Estaríamos a usar os mesmos exemplos de grandeza caso os detalhes da história houvessem sido diferentes?

Certamente sim.

Em um curso de liderança que participei em Harvard estávamos divididos em alunos de muitas nacionalidades. Quando perguntado quem eram nossos exemplos de grandes líderes o colega chinês listou em primeiro lugar Mao Tse Tung.

A visão que ele tinha de Mao é a mesma que nós temos dos nossos exemplos de grandes líderes – aquela contada por pessoas que não participaram dos acontecimentos – a de um líder ético, honesto, justo e que sempre colocará os interesses do grupo acima dos seus próprios, entre outras características quase místicas.

Esta é a visão padrão do grande líder. O problema é que muitos executivos hoje se preocupam mais em se encaixarem no perfil comumente aceito do que propriamente focarem nos objetivos a serem alcançados.

Nelson Mandela, Mahatma Gandhi, Winston Churchill são exemplos de grandes líderes da história recente. Cultuados atualmente pela cultura popular como homens de valores incorruptíveis acima do bem e do mal.

Não estou aqui para julgar estes ídolos da nossa geração. São meus ídolos também. Mas o fato é que antes de entrarem para a história como heróis foram homens comuns. Eles precisaram se sacrificar, muitas vezes sacrificaram seus próprios valores em prol de um determinado objetivo. O destino escolheu que eles obtivessem sucesso e a história é sempre contada pelo lado vencedor.

A internet está cheia de pequenos trechos de “sabedoria” sobre o que é e o que não é

um bom líder. Os meus favoritos (sic) são aqueles que destacam as diferenças entre um chefe e um líder. Vira e mexe alguém decide nos lembrar como devemos nos comportar como lideres, normalmente retratando o chefe como um ser autoritário e retrógrado e o líder como um visionário paternalista.

Não gosto deste tipo de generalização. Não acho ela saudável nem para o líder e nem para o liderado. Ela cria uma falsa expectativa de uma relação que talvez nunca exista e tira o foco daquilo que é o mais importante – o objetivo em questão.

Não estou dizendo que o objetivo está acima de tudo e que não deve haver uma relação de respeito entre chefe e funcionário. Acredito que a relação de respeito e um funcionário motivado sejam pré-requisitos para se atingir os objetivos, mas não o objetivo em si.

Por que de repente resolvemos desacreditar o chefe? Nunca ouvi alguém dizer “Meu líder não me deixou emendar o feriado” ou, “meu líder me deu um aumento”. É sempre o chefe. Por isto não concordo com as generalizações e definições acima.

No mundo dos negócios um chefe precisa liderar e um líder muitas vezes é chefe. O fato é que líder ou chefe são homens e mulheres de negócios e o mundo dos negócios na sua maior parte não é tão belo e romântico como lemos nos livros, nas revistas e nas paginas dos nossos contatos no linked-in.

A realidade é sempre muito diferente e no mundo real existem funcionários que não estão motivados, que trabalham por necessidade e que trocariam seu trabalho num piscar de olhos por uma oferta que pagasse mais. O cara do RH agora vai falar que isso é culpa do chefe que contratou mal. Sim, é, mas estes erros também fazem parte do mundo real. A grande maioria das pessoas quer fazer seu trabalho e receber seu salário no final do mês. Isto faz com que definições baratas e fora de contexto de como um líder deve agir não é nada mais do que isso: uma definição barata; a banalização do líder.

Acredito que meu cliente tenha sido vitima desse fenômeno. De querer se encaixar em um perfil pré-determinado sem considerar que o que de fato sua empresa precisava era de um chefe. De alguém que tomasse as decisões sem se preocupar com que a historia lhe reservara.

Mandela, Gandhi e Churchill alcançaram seus objetivos e nós decidimos enxerga-los como lendas incapazes de errar sem levar em conta as dificuldades muito reais que eles enfrentaram. Eles não nasceram grandes. Erraram, aprenderam e se desenvolveram para então se tornarem as pessoas que são lembradas até hoje.

Particularmente, prefiro enxerga-los como exemplo de superação e de que todos podemos alcançar nossos objetivos.

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